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Segunda-feira, Março 26, 2007
Olga Ferro
Tenho percebido alguma melhora no Baltazar nesses últimos tempos. Ela já olha para os outros sem ficar indiferente; está certo que os modos dele ainda não são os melhores, pois agora ele xinga sem fazer rodeios. Qualquer pessoa o evita, os vizinhos então, têm pavor de encontrar meu velho no elevador, ou em qualquer lugar dentro ou fora do prédio, pois sempre acontece um bate-boca de graça. Posso dizer que os únicos do edifício que não são escorraçados, além de nós, logicamente, são os porteiros, os serventes e um velho que passa parte do dia, e todos os dias, tomando cerveja. Aliás, por esses tempos descobri que também é um militar aposentado. É um dos mais novos moradores do edifício, e junto com este velho veio morar a única filha... Ou neta... Está com cara de ser neta... Enfim; mora com ele... Talvez seja empregada. Ah, como ia dizendo, é uma moça bastante voluptuosa, e para completar a lista de moradores e acompanhantes deste sujeito... Deste bêbado, tem um cão maluco que mora junto. Digo maluco por que às vezes percebo que o animal procura falar algo a eles, mas como não consegue falar, por motivos óbvios, começa a uivar, a latir e a pular seguidamente até que os moradores do andar de baixo façam a reclamação para o síndico.
Bom, eu estava falando sobre meu marido, então, na semana passada senti que uma ansiedade crescia no Baltazar. Era uma coisa latente, não sabia o que lhe causava este distúrbio, mas tive a feliz idéia de fazer um pudim de leite. Feliz idéia porque foi justamente o que lhe acalmou, pelo menos naquele dia, pois nos dias seguintes ficou zanzando de um lado para outro com aquele horrível pé de plástico até que, num determinado momento se cansou. Depois foi para a janela da sala onde ficou analisando não sei o que por horas. Só parou de olhar depois que a diarista passou o pano no vidro. Aí então se sentou, mas pelo jeito não ficou contente, tratou foi de ficar em pé novamente e se pôs a caminhar pela casa. Não obstante, foi para as ruas.
Baltazar Ferro
A vida por vezes nos preá peças homéricas. Por que digo isto? Como não tenho muito que dizer no momento resolvi falar sobre a vida, ou sobre como conduzimos ela ou como somos conduzidos por ela... Sei lá. O fato é que não temos como prever nada nem fazer planos sobre alguma coisa. Nossa! Como estou enrolado desta vez. Bom, depois que fui enterrado, por estar considerado morto, tudo ou pelo menos quase tudo mudou para mim. Antigamente eu saía com prazer. Talvez por que meus amigos estivessem mais dispostos para fazer qualquer coisa também. Então todos saíam, todos bebiam e todos se divertiam.
Pensando sobre esta ausência de divertimento, ou carência de boa companhia, resolvi por em prática uma técnica que há muito não utilizava; sorrir. Certamente que considero isto uma estupidez sem tamanho, pois, onde já se viu sorrir à toa. Para quê? Enfim, que seja. Tal atividade é por demais cansativa, mas, esforço-me como posso para manter esta aparência idiota sem me estressar muito. Por sorte minha o estúpido exercício de sorrir me rendeu frutos num curto espaço de tempo. No meu caso foi providencial, sentia-me, logo nos primeiros minutos que me aventurei pelos corredores do prédio onde moro, assaz desgastado. E por ter conhecido um vizinho, que também é militar aposentado, que pertenceu ao mundo das casernas, e que também leva a vida da maneira que melhor lhe convém, pensei: taí, a diversão está mais próxima do que imaginei, e ainda, posso voltar ao meu normal, sem máscaras ou sorrisos postiços para aliviar o peso do ambiente. Que se dane o peso do ambiente, que se dane o ambiente, que se danem os chatos que implicam comigo. Até uma próxima oportunidade então.
Ah, quanto à diarista; miserável, acabou com meu passa-tempo num piscar de olhos, digo, com um passar de panos. Estava eu distraído e distraindo meus pensamentos cabulosos com um negócio que acontecia no terraço do prédio vizinho. Não sei do que se tratava até então, mas estava divertido, ou pelo menos pensava estar. A coisa se mostrava para mim, pelo menos até o momento que a mulherinha passou a maldita flanela, ou jornal no vidro, como um ser fantástico que pulava e saltitava de um lado para outro com a leveza de uma pluma. Certamente aquilo estava me agradando, aguçando minha mente empoeirada e quase petrificada com tantas mesmices. Mas aí veio aquela desocupada e acabou com meu instante, meu fabuloso instante. Por isso me sentei bravo, por isso saí para procurar alguém, por isso me obriguei a sorrir. Ah, tudo bem, o pudim foi gostoso também; comi tudo.
Oiram Bourges 12:58 [+]
Quinta-feira, Março 08, 2007
Estava de saco cheio de tudo, as coisas quase não aconteciam para mim. Depois que voltei de uma viagem feita à praia tudo se anulou em meu cotidiano. Tive vontade de arrancar meu pé de plástico e doá-lo para uma instituição de caridade, ou jogá-lo em alguma vidraça só para ver os cacos voarem longe, e depois me atirar com tudo num forno de lama asfáltica. Quem sabe fazendo parte da malha rodoviária da cidade eu me sentisse mais útil. No entanto tal vontade passou rapidinho, pois essas coisas são tão... Podem ser tão doídas aos nossos corpos. Assim sendo desisti desta besteira. Mas continuava com vontade de fazer alguma coisa, e pensando desta maneira resolvi dar umas voltas pelas calçadas quebradas que compõem o bucólico cenário do bairro onde moro.
Caminhava sozinho, sem a companhia impertinente do Pereirinha, pelos vários lugares que resolvia seguir. Lugares estes que não me diziam nada de tão estranhos que me pareciam, se bem que todos os lugares me soam estranhos, até a rua onde moro pode se mostrar diferente para mim. Basta uma simples falta de atenção. Coisa esta que, aliás, não tenho nem um pouco. Então seguia eu pelos lugares até que encontrasse alguma coisa familiar, se é que existe tal coisa assim, e aí, poder descansar um pouco ou qualquer outra coisa do gênero.
Lá pelas tantas dei de encontro com um ônibus abarrotado de gente fantasiada e gritando coisas e cantando marchinhas de carnaval. Foi nostálgico isso. E assim que o tal ônibus passou por mim todos gritaram lá dentro para parar. Entre gritos e trocas de tapas abriram a porta da condução e falaram para eu entrar. Depois fui descobrir que alguém me identificou, e este alguém era o Odil, que estava na boléia vestido de salva-vidas e com um charuto pendendo para todos os lados da boca enquanto buzinava alucinadamente pelas ruas esburacadas da cidade.
O motivo da gritaria? Era o tradicional Primeiro Grito de Carnaval do Ao Distinto Cavalheiro. Então chegamos no boteco momentos antes da festa começar. Contudo, assim que chegamos a festa começou; chope para lá e chope para cá. Não tardou muito e já chegou a bandinha do maestro Matoso para fazer ferver tudo. Confete e serpentina enfeitavam o bar, as ruas, as calçadas, nossos copos, nossas roupas, bocas, orelhas e olhos. Mas tudo bem, fazia parte da festa. Sem contar com o pessoal que foi paramentado para o festejo. Perucas brilhantes, roupas coloridas e maquilagens estonteantes deram o tom indiscreto ao festejo.
Tudo era alegria; pierrôs, columbinas, arlequins, palhaços, homens vestidos de mulheres e malabaristas compareceram para animar o local, políticos também surgiram, mas após o mar de vaias caíram fora; os jornalistas, volumosos como sempre, eram do mundo inteiro, e estavam lá para cobrir o evento, e ainda, de quebra, o Quarteto Fantástico apareceu por lá. De certo que estes apareceram para fazer firula. Só pode ter sido isso, pois nada fizeram de fantástico. Bom, continuando, a vizinhança que vivia reclamando de barulhos e coisa e tal foram às ruas em peso para comemorar com felicidade a chegada de mais um carnaval. Mas isso não quer dizer que curitibanos gostem desta festa. É tão só apenas o fascínio momentâneo que estas datas exercem sobre nós, nada mais. Porém, não faço a mínima idéia de como somos influenciados por estes festejos. Não sabemos sambar, não sabemos cantar, não sabemos pensar, não sabemos beber, não sabemos votar, e o que é pior, não sabemos sorrir. Então, por que diabos gostamos deste carnaval. Talvez pelo fato de ser organizado pelo Odil.
E para dar continuidade o bloco dos desajustados feito polacos, duros feito paus, e desafinados feito gralhas saíram pelas ruas num enorme trenzinho feito a ALL, ou seja, tombando por todos os lugares e derrubando seus chopes e amendoins e pipocas e sei lá mais o quê. O maestro e sua patota fizeram arrepiar suas cornetas, pistons e outros instrumentos para incentivar as pessoas a pular e a gritar e a urrar. Vi um professor fugindo de uma de suas crias, digo, um aluno, como quem foge de um cachorro louco. Mas não o censuro por isto; o tal ex-aluno estava pra lá de bêbado e não parava de chatear o querido mestre que compõe o quadro de cliente vip do bar com chatices típicas de alunos e ex-alunos bêbados. Sujeito este que me causou nojo até, pois o vi chupando o gargalo de uma garrafa de cerveja por horas. E depois, mais tarde, veio até mim para perguntar sobre o professor. Naturalmente eu, um lorde com um pé de plástico, safei-me educadamente do ex-aluno; dei-lhe um empurrão homérico que o fez cair sentado sobre sua garrafa oca e chupada no gargalo. Como diria meu cunhado: It's so disgusting.
Não quero me aborrecer com estas picuinhas, portanto darei continuidade a este fato tão importante para a história. A nossa história, claro. Lá pelas tantas resolveram fazer um concurso diferente, ver quem era o Rei Momo mais momo e balofo existente na face da Terra. O concurso, devidamente catalogado para os registros do Livro Guinness de recordes, contou com a presença de vários competidores, cada qual de diferente lugar. Na competição não valiam pessoas que tivessem feito a famigerada cirurgia de redução de estômago. Isto era, sem dúvida, o quesito de grande peso, e que realmente desclassificaria o candidato neste concurso. Soube depois que alguns dos competidores passaram em churrascarias para dar um toque em seus pesos.
Olha, só sei dizer que a festa toda foi um charme e uma alegria só. No entanto não pudemos apreciar a competição do Momo mais momo pelo fato de falta de espaço no bar. Para vocês terem uma idéia do ocorrido, só podia entrar um competidor de cada vez no recinto. Primeiro por que os candidatos eram enormes e segundo por que o bar é minúsculo. Mas isso são apenas detalhes, e detalhes que marcaram nossas vidas naquele dia. E a música? Veja; o maestro Matoso mandou todos seus músicos tocarem até que seus lábios inchassem, ou até que seus dedos ficassem tremendo, ou até que suas baquetas quebrassem, ou ainda, até que todos os sacos estourassem... Ã... De certa forma isto foi uma paródia do que aconteceu no tal do Titanic, onde... Ah, deixa pra lá. Só sei dizer que aquilo foi melhor para nós por que tínhamos música a todo instante, e ainda, foi ótimo para embalar os goles de chope que escorregavam goela adentro.
Lá pelas tantas me deu vontade de urinar, de tanto chope que ingeri. Aí que surgiu o problema; como estava tudo tão tumultuado, filas para fazer isso, para fazer aquilo e aquele outro resolvi ir embora. Poderia fazer minhas necessidades na porta de alguma loja, caso quisesse, claro. Mas a situação do lugar estava impraticável, tinha tanta gente na festa, mas tanta gente que havia fila até nas portas das lojas para o ato da micção. Não sobrou um único lugar vago sequer para mijar. Teria de esperar um longo tempo para executar meu intento, e como não tenho paciência para esperar resolvi me retirar da lá. Preferi isso, pois, se fosse esperar por uma mijadinha eu realmente iria dar a tal mijadinha nas calças. Daí não vale. O Odil certamente me entenderia, mesmo porque acredito que ele também tenha feito isso num certo momento. Por que suspeito disto? Simples, teve uma hora que ele simplesmente sumiu de lá, e ninguém sabia da existência dele. Mas tudo bem.
Continuando; a volta para casa não foi nada fácil. O ônibus no qual me encontrava não parava de sacolejar, minha bexiga, cheia até não poder mais, deixou-se aliviar por entre os acentos vagos do lotação. Por sorte, dos passageiros, claro, eu era o único que estava na condução além do motorista. Caso contrário iria ser uma reclamação atrás da outra para meu lado. Dado um momento eu toquei a campainha para descer. Afinal de contas eu teria de descer uma hora. Só não sabia que hora teria que descer. Mas tudo em nossas vidas pode ter um lado interessante, e às vezes, até um lado bom. Por que disso isso? Que sei lá eu, oras. Mas é isso. Deixe-me cuidar das tais calças que acabei urinando no dia da festa. Sei que já devia de tê-la lavada, mas a preguiça é realmente uma coisa. Por conta disto a casa tem fedido feito não sei o quê. Por que a Olga não reclama? Ainda está viajando.
Aqui um dos conhecidos clientes que ao bar do Distinto costuma ir, cantou, riu, gritou, pulou, aloprou até não poder mais e depois, quando não se aguentou de vontade de urinar, foi embora por não ter um lugar adequado para fazer suas necessidades. Tudo bem.
Ps: A insistência dos tolos me comove e comove a todos os outros tolos com suas tolices e insistências. Este blogue, por exemplo, transita tranquilamente entre esses dois mundos. Tanto é que está de volta, na mais comovente e absurda versão, que é a mesma de sempre.
Oiram Bourges 00:15 [+]
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